O blog Diplomacia Perpétua está recebendo parcerias de estudantes que,assim como eu, têm interesses na área de Relações internacionais.O autor do texto abaixo,Felipe Barroso,tem interesses na área econômica e lingüística.
O Contexto da Crise Econômica Atual
O mundo vive hoje uma incerteza: qual será o rumo da economia mundial após a crise financeira que teve início em 2008? Uma crise de capital, com grandes proporções, que aflige atualmente empresários e não empresários, do ocidente ao oriente, no hemisfério norte e sul. Mas não podemos afirmar que seja nova na História, ela apenas possui novas facetas, inseridas em diferentes contextos.
Crises econômicas sempre existiram: no século XVII, por exemplo, na Europa, a crise foi decorrente da diminuição da intensidade das atividades mineradoras na América, fato que contribuiu para a perda do poderio da Espanha, que nesta época era a grande potência europeia. Entretanto, uma crise de proporção mundial só foi vista três séculos depois: era a queda da bolsa de Nova York, em 1929. A crise atual talvez não seja maior que a crise de 1929, talvez tenha proporções semelhantes, mas encaixa-se em outro contexto, pois o mundo transformou-se enormemente durante os 79 anos que seguiram até o momento em que se percebeu que a crise havia atingido proporções alarmantes, porém não podemos negar que as causas muito se assemelham: uma crise de capital, ou seja, uma falha evidente da administração do sistema capitalista.
Não podemos tratar ou querer abordar a economia como algo simplório. Todo o sistema econômico possui leis, regras, que ao serem quebradas desencadeiam em consequências drásticas. Então há uma questão: como saber os limites das leis regidas pelo sistema econômico capitalista? Pode-se levantar duas hipóteses: aparentemente há leis, mas não há o conhecimento suficiente sobre tais limites ou, simplesmente, essas regras são burladas e esse limite não é considerado quando se goza de relativa prosperidade. De fato, essas regras não foram respeitadas em 1929, quando houve uma super produção (inversamente proporcional ao índice de consumo), que propiciou a decadência da economia, e, em 2008, o consumo exagerado, que culminou em mais um fracasso do capitalismo, com origens nos EUA e que bruscamente se alastrou pela Europa e o resto do mundo.
Falando-se de super produção, seguida de consumo insuficiente, e também sobre consumo exagerado, pode-se pensar que essas associações são certamente ambíguas, mas ambos os fatores possuem forças para provocar a ruptura em um sistema econômico coeso e forte, e definitivamente não são fatores excludentes ou contraditórios: em 1929, após a Primeira Grande Guerra Mundial, a Europa estava arrasada e impossibilitada de consumir o que era produzido exacerbadamente pelos EUA. Em 2008, tem-se definitivamente a quebra dos bancos, devido à grande concessão de créditos à população, majoritariamente dos EUA, que não podia arcar com todas as suas dívidas, embora continuasse a consumir de maneira frenética.
O mundo muda, mas vive aparentemente em um ciclo. Após a crise de 29, percebe-se um intenso investimento do governo na economia. Roosevelt, presidente dos EUA, é então responsável por implementar o New Deal, em 1933, que visava à recuperação da economia altamente prejudicada, com base em investimento de obras de infra-estrutura, fator para a geração de empregos, controle de bancos e instituições financeiras, entre outras medidas. Após o período de intervenção do governo na economia, até a Crise do Petróleo, em 1973, teve-se um período em que o capitalismo devia manter e redigir seus rumos, sem interferência do governo: a era do Neoliberalismo. Perante a crise atual, entretanto, essa tendência, sobretudo na Europa e nos EUA, é de retornar à era de intervenção do Estado na economia.
Mediante a desestabilidade econômica, o Estado é o primeiro acionado, e o que podemos ver atualmente, são medidas de maciça intervenção do Estado para salvar o capitalismo. Grandes bancos e empresas passam de novo quase inteiramente para o controle do Estado. Há pouco tempo, o presidente Barack Obama anunciou um pacote de bilhões de dólares para o investimento em infra-estrutura, que pode gerar novos empregos, além de medidas de controle das principais instituições financeiras. Coincidência ou não, são medidas semelhantes às adotadas por Roosevelt.
Curiosamente, o Estado é capaz de gerar medidas para salvar a economia, mas é ao mesmo tempo praticamente impossibilitado de salvar a população das atrocidades do Liberalismo, ou Neoliberalismo, atualmente. Em 1929, por exemplo, enquanto o Estado usava medidas para salvar o capitalismo, parte da população passava por situações de intensa miséria, assim como relata John Steinbeck, em sua obra “The grapes of wrath”, ou em português, “As vinhas da ira”, uma ficção que relata a dura realidade de uma família que se vê arrasada com os efeitos da Grande Depressão. Já em 2008, a população ainda sofre com a instabilidade do mercado, sofre com o desemprego, mas parece que nada pode ser feito.
Algumas declarações e discursos são positivos pelo menos: em nosso país, não falta otimismo, por exemplo, por parte do ministro da Fazenda, Guido Mantega, que comumente se predispõe a dizer que o Brasil é um dos poucos países a conseguir sair ileso dos danos da atual crise, mas sabemos que, por mais que a economia brasileira possa parecer intacta, podendo atualmente conceder até empréstimos para o FMI, sabemos que na verdade o Brasil e a população brasileira sofrem sim com a crise.
Vivemos em sistema capitalista que podemos afirmar ser o grande vitorioso da Guerra Fria. Fazemos parte de uma sociedade complexa, inserida no contexto da globalização, cuja principal ideologia é liberalismo (para o consumo). Sendo assim, não estamos impossibilitados de sofrer com uma crise cuja origem pode estar em qualquer região do planeta. Mesmo que haja um ciclo na economia, não podemos deixar de rever nossas concepções de consumo, essa tão grandiosa pseudo-liberdade, para poder mudar nossos rumos. Não estamos presos necessariamente ao Neoliberalismo, por isso devemos repensar para que um novo caminho possa ser seguido. Um caminho onde a liberdade pose ser interpretada literalmente como tal, um rumo que possa ser realmente mais estável, onde grandes falham podem ser evitadas.